terça-feira, 24 de novembro de 2009

RESENHA “ASSUNTO DE MENINAS”

Kally Samara Medeiros Silva Gomes

Para você que gosta de uma boa dose de romance aliada a uma pitada de drama, não pode deixar de assistir este excelente filme: “Lost and Delirious” ou “Assunto de Meninas”. A produção franconorteamericana é de 2001, tem direção de Léa Pool e conta à história de Mary Bradford, uma menina muito tímida e quieta que se vê completamente perdida após a morte de sua mãe. O filme se desenvolve a partir daí e nele um cenário de amor e ódio, homofobia e aceitação é desenhado bem aos olhos da jovem “Mouse”. Sob a temática da homossexualidade, o filme narra a triste perseguição e homofobia que sofrem muitos homossexuais — no caso do filme, um casal lésbico.
Resenha do filme

Um dos desafios enfrentados atualmente é o da edificação de uma sociedade inclusiva e democrática, que contribua para que as pessoas possam compartilhar suas diferenças, respeitando as diversidades existentes. Nesse sentido, discutir e problematizar as relações de gênero e a sexualidade é uma das condições indispensáveis para a desconstrução e superação de estereótipos e de preconceitos que tem gerado desigualdades entre as pessoas.

É importante perceber que, apesar de homens e mulheres possuírem corpos cujas distinções genitais os agrupam em dois conjuntos bem gerais, as qualidades, as habilidades, os gostos pessoais, o temperamento e o caráter sempre variam entre os indivíduos e não são determinados pelo sexo biológico (CARVALHO, 2000).

No entanto, ao lançar um olhar mais atento ao filme, pode-se perceber o desrespeito pela orientação sexual de Paulie e Tory. Afinal, a escolha do parceiro ou da parceira dependerá da orientação sexual de cada pessoa e não do seu sexo biológico. Desse modo, essa orientação é um elemento importante da identidade sexual, definida pela forma de cada um viver seus desejos e prazeres, ou seja, sua sexualidade. No nível social, há pouca tolerância com as variáveis expressões de orientação sexual: verifica-se a tendência a uma obrigação em identificar os indivíduos em uma categoria fixa, constituindo-se a heterossexualidade em norma e se condenando outras orientações, como a homossexual ou a bissexual. A intenção, geralmente, é discriminar ou marginalizar de algum modo o indivíduo que foge dos padrões estabelecidos culturalmente.

Nesse contexto, é útil analisar algumas definições e conceitos básicos a respeito do filme. O termo homofobia refere-se à manifestação de preconceito e discriminação negativos, aversão, hostilidade, práticas estigmatizantes, exclusão e violência contra pessoas de orientação homoerótica, gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais, assim como contra todas as pessoas (inclusive heterossexuais) cujas expressões de masculinidade e feminilidade não se enquadrem no padrão heterossexual e nos papéis/estereótipos de gênero (CARVALHO; ANDRADE; MENEZES, 2009, p.21). Já o termo lesbofobia (ou lesbifobia), segundo a enciclopédia Wikipédia, inclui várias formas de negatividade em relação às mulheres como indivíduos, como um casal ou como um grupo social. Com base nas categorias de sexo ou gênero biológico, orientação sexual, identidade lésbica e expressão de gênero, esta negatividade engloba preconceito, discriminação e abuso, além de atitudes e sentimentos variando de desdém a hostilidade. O termo identidade sexual/gênero refere-se à sensação interna de um indivíduo sobre ser masculino ou feminino, menino ou menina, homem ou mulher. Como a orientação sexual, a identidade sexual baseia-se em construções psicológicas conscientes e inconscientes profundas.

O termo orientação sexual refere-se aos desejos e preferências de um indivíduo no que diz respeito ao sexo dos parceiros íntimos. São reconhecidos três tipos de orientações sexuais: a heterossexualidade (atração física e emocional pelo sexo oposto); a homossexualidade (atração física e emocional pelo mesmo sexo); e a bissexualidade (atração física e emocional tanto pelo mesmo sexo quanto pelo sexo oposto) (BARRETO; ARAÚJO; PEREIRA, 2009).
Já o termo “lésbica” refere-se à identidade social modernamente atribuída à mulher de orientação sexual homossexual, ou seja, que se relaciona sexual ou afetivo-sexualmente com outras mulheres (CARVALHO; ANDRADE; MENEZES, 2009, p.30).

Desse modo, a lesbianidade foi definida por Garcia (2003) ora como amor entre mulheres, ora como uma prática sexual destas entre si. De fato, conforme Mott (1987), a maioria das lésbicas não persegue o prazer sexual como finalidade única na relação com a companheira; seus objetivos são níveis profundos de comunicação, ternura, carinho e delicadeza. Então, a amizade é que se torna sexualizada, pois a relação sexual nasce de um sentimento profundo que tem por base o amor (PALMA; LEVANDOWSKI, 2008). Assim nesse contexto, enquadra-se o relacionamento entre as personagens do filme, Paulie e Tory, evidenciado pela reciprocidade do verdadeiro amor existente entre ambas, em detrimento ao prazer sexual.

A partir da ideia exposta, pode-se constatar que um casal de mulheres é marcado por um intenso companheirismo, com forte ênfase no apoio mútuo. Em geral, as lésbicas não sofrem perseguição aberta como os homens homossexuais, porém o silêncio que existe em torno da lesbianidade e a invisibilidade a que as lésbicas estão submetidas são uma das piores formas de opressão. Essa opressão é apresentada no filme através do silêncio das personagens, como também da dificuldade em assumirem sua verdadeira orientação sexual, já que a sexualidade vivenciada por elas não é a que a sociedade espera que seja.

Mott (1987) enfatiza que poucas famílias aceitam e convivem bem com membros de orientação sexual homossexual, estando mais presentes à intolerância e o inconformismo. O autor ainda comenta que, para a grande maioria das lésbicas, a família acaba por se constituir, na maioria das vezes, uma das principais preocupações, como repressora ou como cobradora de compromissos heterossexuais. (PALMA; LEVANDOWSKI, 2008). Isso é mostrado no filme através da força do medo da personagem Tory em assumir seu sentimento, receando uma possível rejeição da família e dos amigos.

Assim, a grande maioria dos pais que tem filhas homossexuais parece esperar uma mudança nessa orientação sexual. Com isso, acaba predominando a intransigência, constituindo-se a família a principal preocupação, seja como fonte de repressão, seja como cobradora de compromissos sociais heterossexuais. Desse modo, fica evidente que na maior parte das vezes as famílias operam a partir de uma crença de que todos os filhos serão heterossexuais e crescerão seguindo estilos de vida e vivências desse tipo.

“Assunto de Meninas” explora com sensibilidade e veracidade como o preconceito e o medo podem interferir na vida das pessoas, a ponto de vencer um sentimento sincero e profundo que é o amor, revertendo-o em algo extremamente doloroso.

Nesse sentido, o filme contribui significativamente para os profissionais que atuam na educação, tendo em vista que desde a Educação Infantil, as crianças e adolescentes devem estudar, discutir, refletir, sobre as questões de gênero, classe, raça/etnia e orientação sexual, tendo continuidade destes conteúdos, em todos os níveis de ensino. Acredita-se que a educação é uma das ferramentas de transformação desta sociedade que exige um padrão de “normalidade”, que acaba privilegiando quem é homem, branco, que tem dinheiro, que tem um padrão estético de beleza exigido pelas passarelas da moda vigente: alto e alta, magra e magro, “boa aparência” (isto significa ser branca, magra e de cabelos lisos). Até quando vamos ser coniventes com esta hipocrisia que classifica as pessoas pela cor, pelas propriedades que possui, e pela sua orientação sexual? Enquanto a mudança não acontece, a exclusão continua.

Referências:

BARRETO, Andreia; ARAÚJO, Leila; PEREIRA, Maria Elisabete (orgs). Gênero e diversidade na escola: formação de professoras/es em Gênero, Orientação Sexual e Relações Étnico-Raciais. Rio de Janeiro: CEPESC, 2009.

CARVALHO, Maria Eulina Pessoa; ANDRADE, Fernando Cézar Bezerra; MENEZES, Cristiane Souza. (Orgs). Equidade de Gênero e Diversidade Sexual na Escola: Por uma prática pedagógica inclusiva. João Pessoa-PB: Ed. Universitária / UFPB, 2009.

CARVALHO, Maria Eulina Pessoa; ANDRADE, Fernando Cézar Bezerra; JUNQUEIRA, Rogério Diniz. Gênero e Diversidade Sexual: Um Glossário. João Pessoa-PB: Ed. Universitária / UFPB, 2009.

PALMA, Yáskara Arrial; LEVANDOWSKI, Daniela Centenaro. Vivências pessoais e familiares de homossexuais femininas. Psicol. estud., Maringá, v. 13, n. 4, dez. 2008 . Disponível em Acesso em 10 nov. 2009. Doi: 10.1590/S1413-73722008000400015.

Outras leituras:

HYPERLINK http: //www.cinema.cineclick.uol.com.br Acessado em: 04/11/2009.

HYPERLINK http: //www.letrasdefilmes.com.br Acessado em 03/11/20009.

HYPERLINK http: //www.wikipedia.org/wiki/Lesbofobia Acessado em 16/11/20009.

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